Saúde

Gravidez multiplica por sete o risco de eventos cardíacos graves, aponta estudo com 2,7 milhões de mulheres
Pesquisa da Weill Cornell Medicine revela que complicações cardiovasculares ligadas à gestação respondem por metade das mortes maternas; risco absoluto cresce de forma acentuada após os 31 anos
Por Laercio Damasceno - 18/05/2026


Imagem: Reprodução


Uma das principais preocupações da medicina obstétrica contemporânea acaba de ganhar novas evidências científicas: a gravidez representa um período de forte sobrecarga cardiovascular, capaz de multiplicar por sete o risco de eventos cardíacos graves em mulheres, independentemente da idade materna. O alerta surge em um amplo estudo publicado nesta segunda-feira (18), na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores da Weill Cornell Medicine, em Nova York.

A pesquisa analisou dados de 2,7 milhões de mulheres nos Estados Unidos e concluiu que o período gestacional e o pós-parto estão associados a um aumento expressivo de complicações cardiovasculares severas — incluindo insuficiência cardíaca, trombose, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e parada cardíaca.

O trabalho foi liderado pelo neurologista Hooman Kamel, ao lado de especialistas em obstetrícia, cardiologia e medicina vascular. Segundo os autores, o estudo ajuda a esclarecer uma questão debatida há anos: se o envelhecimento da mãe aumenta diretamente os riscos cardiovasculares da gravidez ou se a gestação apenas amplifica vulnerabilidades já existentes.

“A gravidez parece agir como um teste de estresse cardiovascular”, afirmam os pesquisadores no artigo. Em vez de criar novos mecanismos de risco associados à idade, o estudo sugere que a gestação “amplifica uniformemente” problemas cardiovasculares prévios que tendem a se acumular com o envelhecimento.

Os números impressionam. Entre as 13.744 mulheres que sofreram algum evento cardiovascular grave, 12.059 apresentaram complicações durante a gravidez ou no pós-parto, taxa equivalente a 4,45 casos por mil pacientes. No período de controle — um intervalo semelhante, um ano após a gestação — ocorreram apenas 0,62 caso por mil.

Na prática, isso significa um risco 7,2 vezes maior de eventos cardiovasculares durante a gravidez e os meses subsequentes.

Embora o aumento relativo do risco tenha se mostrado semelhante em todas as idades, os impactos absolutos crescem conforme a mulher envelhece. Até os 31 anos, o acréscimo médio foi de cerca de três eventos extras para cada mil gestações. A partir daí, os índices aumentam progressivamente, chegando a dez eventos adicionais por mil gestações aos 44 anos.

Os pesquisadores observaram ainda que mulheres com doenças pré-existentes apresentaram taxas muito superiores. Hipertensão arterial, diabetes, doenças renais e asma figuraram entre as condições mais associadas às complicações cardiovasculares. O dado relacionado à asma chamou particularmente a atenção dos autores.

“A super-representação de pacientes com asma entre aquelas com eventos cardiovasculares graves é impressionante”, destaca o estudo, sugerindo novas linhas de investigação científica.

Outro ponto relevante envolve as desigualdades raciais e sociais. Mulheres negras apareceram proporcionalmente mais entre os casos graves do que mulheres brancas. Segundo os autores, porém, a diferença não parece estar ligada a mecanismos biológicos do envelhecimento, mas sim a fatores estruturais, como acesso desigual ao sistema de saúde e determinantes sociais.

Os dados reforçam um problema crescente em diversos países, inclusive no Brasil: o aumento da idade média da maternidade. Nas últimas décadas, fatores econômicos, educacionais e profissionais levaram milhões de mulheres a adiar a gravidez. Em países desenvolvidos, o número de partos após os 35 anos cresce continuamente.

Historicamente, a medicina classifica gestações após os 35 anos como de “idade materna avançada”, conceito que ganhou força a partir dos anos 1970 devido ao aumento de riscos obstétricos e genéticos. O novo estudo, entretanto, propõe uma visão mais refinada do problema: o risco cardiovascular não dispara subitamente após determinada idade, mas cresce de forma gradual e contínua.

As complicações mais frequentes observadas pelos cientistas foram tromboembolismo venoso, cardiomiopatia e insuficiência cardíaca. Juntas, essas condições responderam pela maior parte das internações graves relacionadas à gestação.

O impacto sobre a mortalidade materna também foi expressivo. Dos casos de eventos cardiovasculares graves registrados, 240 resultaram em morte — quase metade de todas as mortes maternas observadas na população estudada. Entre as sobreviventes, cerca de 10% precisaram de reabilitação, cuidados domiciliares ou transferência para instituições especializadas após a alta hospitalar.


Para especialistas, os achados podem alterar protocolos clínicos. O estudo sugere que mulheres acima de 31 anos — especialmente aquelas com hipertensão, obesidade, diabetes ou histórico cardiovascular — poderiam se beneficiar de monitoramento mais intenso durante toda a gestação.

A obstetra Laura E. Riley, coautora do trabalho, defende maior integração entre cardiologia e medicina materno-fetal. Segundo os pesquisadores, a saúde cardiovascular antes da gravidez deve se tornar prioridade de políticas públicas voltadas à saúde feminina.

“Nosso achado reforça a importância da condição cardiovascular prévia da paciente”, escrevem os autores. “Há necessidade de esforços clínicos e de saúde pública multidisciplinares para otimizar a saúde cardiovascular antes da gravidez.”


O estudo utilizou registros hospitalares de 11 estados norte-americanos entre 2016 e 2021, cobrindo cerca de 25% da população dos Estados Unidos. A metodologia adotada permitiu comparar cada mulher consigo mesma: os pesquisadores avaliaram o risco cardiovascular durante a gravidez e o confrontaram com um período equivalente um ano depois, quando a paciente não estava grávida.

Essa estratégia reduziu interferências de fatores individuais permanentes, aumentando a precisão estatística dos resultados.

Embora reconheçam limitações — como o uso de códigos hospitalares em vez de prontuários completos — os autores afirmam que os resultados permanecem robustos em múltiplas análises de sensibilidade.

Em meio ao crescimento global das doenças cardiovasculares e ao envelhecimento da maternidade, os pesquisadores avaliam que o estudo oferece um alerta importante para sistemas de saúde. Mais do que um fenômeno obstétrico, a gravidez aparece cada vez mais como um marcador crítico da saúde cardiovascular feminina ao longo da vida.


Referência
Kamel, H., Riley, LE, Son, M. et al. Idade materna e complicações cardiovasculares relacionadas à gravidez. Nat Commun 17 , 4066 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72580-9

 

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